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Ciências Biomédicas, Biomed Biopharm Res., 2022; 19(1):72-81

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Os profissionais das farmácias comunitárias sabem utilizar autoinjectores de adrenalina?

Ana Margarida Mesquita*, Ricardo Moço Coutinho, José Luís Plácido, Alice Coimbra

Serviço de Imunoalergologia, Centro Hospitalar e Universitário de São João, EPE, Porto, Portugal

* autora para correspondência: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.

 

Resumo

A adrenalina é o tratamento de primeira linha da anafilaxia e deve ser administrada o mais rapidamente possível. Os profissionais das farmácias comunitárias (farmacêuticos e técnicos de farmácia) dispensam autoinjectores de adrenalina (AIA) aos doentes alérgicos e poderiam ter um papel extremamente importante no reforço do ensino da administração destes dispositivos.

Neste estudo, foi realizado um questionário a profissionais de farmácias comunitárias em cidades do Norte de Portugal. Os mesmos profissionais foram convidados a simular a administração de adrenalina com dispositivos de treino dos dois autoinjectores disponíveis em Portugal.

A maioria dos inquiridos referiram não ter tido formação acerca dos AIA e mais de um terço não conseguiram administrar corretamente os dispositivos de treino.

Os profissionais das farmácias comunitárias podem ter um papel essencial no reforço da educação dos doentes. Consequentemente, é importante incentivar e garantir a sua formação, de modo a fornecerem instruções mais claras e minuciosas aos doentes.

 

Palavras-chave: autoinjector de adrenalina; anafilaxia; farmácia comunitária; alergia; conhecimento

Recebido: 06/05/2022; Aceite: 12/07/2022

 

Introdução

A anafilaxia é uma reacção de hipersensibilidade grave e potencialmente fatal. Independentemente do seu mecanismo causal, o diagnóstico é clínico (1) e deve ser considerado muito provável na presença de pelo menos um dos três critérios clínicos seguintes: início súbito com envolvimento da pele e/ou mucosas e pelo menos um dos seguintes: compromisso respiratório ou hipotensão ou sintomas associados; ocorrência de dois ou mais dos seguintes, rapidamente após exposição a um alergénio provável para o doente: envolvimento da pele e/ou mucosas, compromisso respiratório, hipotensão ou sintomas associados ou sintomas gastrintestinais súbitos e persistentes; hipotensão após exposição a um alergénio conhecido para o doente (2).

O tratamento de primeira linha é a adrenalina, que deve ser administrada o mais precocemente possível. Está disponível como ampola ou autoinjector de adrenalina (AIA), tendo este dispositivo o objectivo de facilitar a sua administração (3). Os doentes com história de anafilaxia devem ser referenciados à consulta de Imunoalergologia e podem ter indicação para ser portadores de um AIA (1).

Segundo o registo nacional de anafilaxia da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC), entre 2007 e 2017 foram prescritos AIA a 1049 doentes de 1783 reportados (1). Estes dados mostram que os AIA estão sub-representados na prática clínica (3,4).

Em Portugal estão disponíveis dois AIA, Epipen® (ViatrisTM) e Anapen® (Lincoln Medical Ltd), na dose de 0,15 e 0,3 mg.

A técnica correta de utilização de um AIA deve sempre ser demonstrada no momento da sua prescrição. Deve ser fornecido ao doente um plano de emergência escrito onde estão indicados os sintomas de alerta, a medicação que deve ser utilizada e como deve ser usado o AIA. A SPAIC criou um folheto ilustrativo do plano de emergência na anafilaxia que compreende todos os itens referidos anteriormente (5). Após o ensino deve sempre ser verificada a aprendizagem do doente. Todos estes procedimentos estão de acordo com as normas internacionais do National Institute for Health and Care Excellence (6).

Os farmacêuticos e os técnicos de farmácia, que dispensam estes dispositivos, podem também desempenhar um papel importante na educação e ensino destes doentes (7). Por isso, estes profissionais deveriam conhecer e saber utilizar os AIA disponíveis.

Um estudo alemão concluiu que apenas 1 em cada 5 farmácias forneciam informação detalhada sobre AIA e 70% dos farmacêuticos afirmavam não estar interessados em receber formação (4). Um estudo australiano relatou que os farmacêuticos têm taxas aceitáveis da correta demonstração do uso da Epipen® e da Anapen®, mas com espaço para melhorias (7).

O objectivo deste estudo foi verificar o conhecimento e a capacidade de demonstração da utilização dos AIA de farmacêuticos e técnicos de farmácia.

Material e Métodos

Entre maio de 2018 e julho de 2019 foi realizado um questionário em farmácias comunitárias do Norte de Portugal. A selecção das farmácias foi feita de acordo com a proximidade geográfica ao Centro Hospitalar Universitário de São João, tendo aceitado participar um total de 17 farmácias. Os profissionais presentes no momento da visita (farmacêuticos e técnicos de farmácia), que deram o seu consentimento para fazer parte do estudo, preencheram um questionário anónimo (Figura 1), em papel, que incluía questões gerais sobre o conhecimento acerca dos AIA, a experiência prévia de venda, se tiveram formação sobre a técnica de utilização e a opinião sobre o nível de autoconfiança para instruir os doentes na sua utilização.

O questionário foi desenvolvido pelos autores apenas para este estudo e não foi submetido a um processo de validação. Todos os farmacêuticos e técnicos de farmácia que responderam ao questionário foram depois convidados a simular a administração de adrenalina com ambos os dispositivos de treino dos dois AIA disponíveis em Portugal. A simulação foi avaliada pelos autores de acordo com as indicações de utilização fornecidas pelos fabricantes (8,9) e classificada em uma de três categorias: incapaz de demonstrar injeção de adrenalina com o AIA, capaz de demonstrar injeção de adrenalina com o AIA mas com pequenos erros na demonstração ou demonstração completa sem qualquer erro. Posteriormente foi feito o ensino da técnica correta de administração destes dispositivos aos participantes.

O IBM SPSS Statistics for Windows, Version 27.0, foi utilizado para efectuar a análise estatística, maioritariamente descritiva, tendo o teste qui-quadrado sido utilizado para comparações. Os resultados foram considerados estatisticamente significativos para um valor de p inferior a 0,05.

Resultados

Foram incluídos 53 questionários. Quarenta (75%) participantes eram do sexo feminino, a idade média era de 36 anos (intervalo interquartil 21) e 34 (64%) eram farmacêuticos. Do total dos participantes, 47 (89%) sabiam o nome de pelo menos um AIA e 31 (58%) conseguiram nomear os dois autoinjectores. Quarenta e sete (89%) afirmaram não ter formação prévia ou informação sobre como utilizar um AIA. Trinta e sete (70%) responderam que já tinham vendido pelo menos um AIA e apenas 3 (6%) afirmaram já terem instruído um doente sobre a sua utilização (Tabela 1). Trinta e oito (72%) disseram não ter ideia de qual o AIA que seria mais fácil de utilizar ou de ensinar.

Relativamente à demonstração da utilização de um AIA com os dispositivos de treino, 26 (49%) profissionais não conseguiram demonstrar a autoadministração com a Anapen® e 20 (38%) com a Epipen®.  Dezasseis (30%) demonstraram corretamente como administrar adrenalina com a Anapen® e 24 (45%) com a Epipen®mas não massajaram o local da injeção (como indicado nas instruções do fabricante (8,9)). Onze (21%) conseguiram simular o procedimento completo com o simulador da Anapen® e 9 (17%) com o da Epipen® (Figura 2).

No grupo dos inquiridos que referiram conhecer a Anapen®, 20 (45%) não conseguiram realizar a administração da adrenalina e no grupo dos que conheciam a Epipen®, 10 (29%) não foram capazes.

Dos 3 profissionais que afirmaram já ter ensinado pelo menos um doente, um deles reportou ter feito o ensino de ambos os dispositivos e demonstrou a técnica correta de uso com os dois. Os restantes 2 referiram ter ensinado apenas a Anapen®, mas não conseguiram simular injeção de adrenalina com o dispositivo de treino respetivo.

Não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre farmacêuticos e técnicos de farmácia relativamente à técnica de administração e não foram encontradas diferenças quando comparada a simulação da injecção com os dois AIA. Quarenta e quatro (83%) participantes consideraram que a Epipen® seria mais fácil de usar e ensinar, após a demonstração.

Discussão

Tanto quanto sabemos, este é o único estudo realizado em Portugal que avalia o nível de conhecimento dos profissionais das farmácias comunitárias sobre os AIA e que inclui farmacêuticos e técnicos de farmácia. Apesar da formação, funções desempenhadas e responsabilidade serem distintas nas duas classes, os autores consideraram importante incluir todos os profissionais que dispensam estes dispositivos.

De acordo com um trabalho realizado em 2016, cujo objetivo foi avaliar a aptidão dos doentes para utilizarem os AIA que lhes tinham sido prescritos, verificou-se que mais de um terço eram incapazes de o fazer corretamente (10). Isto demonstra que existe ainda muito trabalho a ser feito na educação destes doentes.

Está descrito que o ensino por repetição aumenta a capacidade de aprendizagem e permite manter o conhecimento adquirido durante mais tempo (11). Estes estudos relativos à formação de memórias levam-nos a pensar que mais momentos de instrução da técnica de administração dos AIA podem melhorar a aprendizagem dos doentes. Tendo isto em conta, os profissionais das farmácias comunitárias podem tornar-se uma oportunidade adicional no reforço da educação destes doentes.

Apesar de aproximadamente 90% referir conhecer pelo menos um AIA, a mesma percentagem de participantes afirmou não ter formação prévia sobre a sua utilização.

Quando foi avaliada a técnica de utilização dos AIA quase metade não foi capaz de simular a injeção com a Anapen® e mais de um terço com a Epipen®. Verificou-se ainda que dois participantes que referiram ter ensinado a Anapen® erraram a demonstração da administração. Estes dados expõem uma lacuna na formação dos profissionais das farmácias sobre AIA, que é independente da classe profissional uma vez que não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre ambas as classes relativamente à técnica de administração.

Seria importante que a aquisição de conhecimento sobre estes dispositivos e a sua técnica de utilização estivessem incluídas no plano de formação académica destes profissionais ou que fossem criadas acções educativas neste sentido. Isto possibilitaria a existência de momentos de ensino aos doentes, nomeadamente aquando da dispensa, evitando erros na transmissão de informação.

Os autores apontam como limitações do estudo o tamanho da amostra e o facto de se tratar de uma amostra de conveniência por proximidade geográfica. Também não foi tido em conta os anos de experiência profissional. Deve também ter-se em consideração o facto de que havendo aviso prévio de visita à farmácia por parte dos investigadores, alguns dos profissionais podem ter tentado adquirir conhecimento que não teriam de outra forma. Como perspectivas futuras seria interessante reavaliar nos inquiridos a técnica de utilização dos AIA e alargar o estudo para diferentes regiões do país, que permita ter uma amostra nacional mais representativa.

Conclusão 

Neste grupo, a maioria dos profissionais das farmácias referiram não ter formação acerca dos AIA e da técnica de utilização e mais de um terço não conseguiram simular a administração de adrenalina com um dispositivo de treino.

É essencial que os doentes com reacções alérgicas graves saibam utilizar corretamente o seu AIA. Sendo assim, seria importante que tanto aqueles que os prescrevem como aqueles que os dispensam estivessem completamente familiarizados com estes dispositivos, de modo a fornecerem instruções mais claras e minuciosas aos doentes.

Com os resultados deste estudo, concluímos que ainda há espaço para melhoria na formação dos farmacêuticos e técnicos de farmácia sobre este assunto. Assim, estes profissionais podem tornar-se mais importantes na formação dos doentes aquando da dispensa destes dispositivos.

Consequentemente, é necessário incentivar e assegurar a sua formação, criando oportunidades educativas e sensibilizando-os para a importância vital da adrenalina para o tratamento da anafilaxia.

Contribuição dos autores

AMM, desenho do estudo, conceitos, análise dos dados, escrita e texto final; RMC, análise de dados, escrita e texto final; JLP, revisão e supervisão; AC, revisão e supervisão.

Financiamento

nenhum

Conflito de interesses

Os autores não têm conflitos de interesses relacionados com este manuscrito.

Referências

1. Gaspar A., Santos N., Faria E., Câmara R., Rodrigues-Alves R., Carrapatoso I., Gomes E., Pereira A., Carneiro-Leão L., Morais-Almeida M., Delgado L., Pedro E., Branco-Ferreira M. (2019). Anafilaxia em Portugal: 10 anos de Registo Nacional da SPAIC 2007-2017. Revista Portuguesa de Imunoalergologia; 27 (4): 289-307. http://doi.org/10.32932/rpia.2020.01.023

2. Pereira A., Gaspar A., Branco-Ferreira M. (2018). Algoritmo de diagnóstico diferencial de anafilaxia. Revista Portuguesa de Imunoalergologia; 26 (3): 221-228.

3. Esenboga, S., Ocak, M., Cetinkaya, P.G., Sahiner, U.M., Soyer, O., Buyuktiryaki, B., Sekerel, B.E. (2000). Physicians prescribe adrenaline autoinjectors, do parents use them when needed? Allergologia et Immunopathologia, 48(1), 3-7. https://doi.org/10.1016/j.aller.2019.07.009.

4. Worm, M., Molaie, N., Dölle, S. (2018). Level of knowledge among pharmacists regarding anaphylaxis and the use of epinephrine autoinjectors. Deutsche Dermatologische Gesellschaft 16(11), 1315-1321. https://doi.org/10.1111/ddg.13679.

5. https://www.spaic.pt/publicacoes-folhetos?id=58

6. Anaphylaxis Quality Standard (2016). National Institute for Health and Care Excellence. https://www.nice.org.uk/terms-and-conditions#notice-ofrights.

7. Salter, S.M., Loh, R., Sanfilippo F.M., Clifford R.M. (2014). Demonstration of epinephrine autoinjectors (EpiPen and Anapen) by pharmacists in a randomised, simulated patient assessment: acceptable, but room for improvement; Allergy Asthma Clinical Immunology, 10(1), 49. https://doi.org/10.1186/1710-1492-10-49.

8. © Viatris Inc. All Rights Reserved (2022). How to use an EPIPEN® (epinephrine injection, USP) Auto-Injector. EPI-2020-0273 V3

9. Anapen®. How To Use (reviewed in 2017). Retrieved on January 2022 from https://www.anapen.com.au/anapen-instruction

10. Carneiro-Leão, L. et al. (2016) Do patients know how to use adrenaline auto-injectors? Food Allergy and Anaphylaxis Meeting, Oral Abstract Session; OP05

11. Zhan, L., Guo, D., Chen, G., Yang, J. (2018). Effects of Repetition Learning on Associative Recognition Over Time: Role of the Hippocampus and Prefrontal Cortex. Frontiers in Human Neuroscience. 12, 277. https://doi.org/10.3389/fnhum.2018.00277

Apêndice

Tradução do Questionário

Pharmacy: Date:

1. Age: years

2. Sex: Female / Male

3. Profession: Pharmacist / Pharmacy Technician

4. Do you know any adrenaline autoinjector / pen (AAI)?

4.1. If YES, which one? Anapen® / Epipen®

5. Are there adrenaline autoinjectors / pens in your pharmacy?

5.1. If YES, which one(s)? Anapen® / Epipen® / Both

5.1.1. Which is the most sold in your pharmacy? Anapen® / Epipen®

5.1.2. When was the last time you sold an AAI?

5.1.2.1. Which one? Anapen® / Epipen®

5.2. If NO, please indicate the reason:

6. Have you ever had training on how to use an AAI? Yes / No

6.1. If YES, please indicate how / where?

During the (academic) course / (Professional) training / Information leaflet / Internet /

Other:

7. Have you ever taught a patient how to use an AAI? Yes / No

7.1. If you indicated YES, when was the last time?

7.2. Which one? Anapen® / Epipen®

7.3. How many times have you taught the use of an AAI?

8. Which do you think is easier to use / explain? Anapen® / Epipen®

 

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